Sem receber por Fies desde julho, instituições podem 'fechar catracas'
Representantes das instituições privadas de ensino superior
ameaçaram o governo de “fechar catracas” e paralisar aulas, já na semana que
vem, caso os repasses do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), atrasados
desde julho, não sejam quitados, no valor de R$ 6 bilhões. O recado foi dado em
reunião no Palácio do Planalto, nesta quinta-feira.
O governo deve R$ 700 milhões ao Banco do Brasil e à Caixa
Econômica Federal, por taxas bancárias vinculadas ao Fies. Enquanto a
inadimplência durar, os quase 2 milhões de alunos estão impedidos de fazer a
renovação dos financiamentos, nas instituições financeiras, referente ao
segundo semestre de 2016. Sem isso, o Ministério da Educação (MEC) não vem
repassando os valores devidos às faculdades, embora os alunos estejam assistindo
às aulas normalmente.
Sólon Caldas, diretor executivo da Associação Brasileira de
Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), umas das entidades presentes à reunião
no Planalto, diz que as instituições, sobretudo as pequenas, estão em situação
financeira precária, no quarto mês sem receber. Segundo ele, medidas terão de
ser tomadas caso a situação persista:
- Se uma solução não acontecer, as instituições vão ter que
tomar uma decisão. Travar catraca é uma decisão mais drástica, mas teremos que
fazer alguma coisa. Estamos percebendo que o governo não se deu conta do
tamanho do problema que é ter 2 milhões de alunos estudando de forma irregular,
sem estarem efetivamente matriculados - afirma Caldas.
Segundo ele, se a situação persistir até o fim do ano, os
alunos terão de assumir as mensalidades não pagas e ficarão impedidos de permanecer
estudando com o Fies no primeiro semestre de 2017, uma vez que estarão sem a
renovação referente ao semestre anterior. A cada seis meses, os beneficiados
pelo Fies têm de fazer o aditamento do contrato. É comum haver atrasos, mas
nunca em um período tão longo de tempo, aponta Caldas:
- As instituições abriram a possibilidade de os alunos
continuarem estudando para não comprometer o semestre letivo, mas na
expectativa de que os aditamentos ocorreriam em agosto. Já estamos entrando em
outubro e nada. As instituições não têm fôlego para suportar essa situação.
Para pagar as taxas bancárias sem incorrer nas chamadas
“pedaladas fiscais”, o governo Temer enviou ao Congresso o PLN 8/2016, que pede
abertura de crédito suplementar em favor do MEC. A ideia é não repetir um dos
atos questionados da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, quando bancos
públicos permaneciam gerenciando programas sem receber do governo as taxas
devidas.
O Planalto espera que na próxima semana haja condições de
convocar uma sessão do Congresso (Câmara e Senado). A maior dificuldade está na
agenda atribulada da Câmara, onde pautas como reforma política, repatriação,
pré-sal e PEC do teto de gastos vêm ganhando força.
Se não conseguir votar o projeto na semana que vem - e correr
o risco de paralisações nas faculdades -, o governo teme não conseguir fazê-lo
na semana seguinte, pois o feriado de 12 de outubro será na quarta-feira, no
meio da semana. Os quinze dias seguintes antecedem o segundo turno, que deverá
mobilizar bases parlamentares nas maiores capitais, como São Paulo, Rio de
Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. A primeira quarta-feira de novembro,
dia 2, também é feriado e pode inviabilizar sessões.
O MEC informou, via assessoria de imprensa, que os
aditamentos ainda estão no prazo, já que devem ocorrer até o final do
quadrimestre do semestre, ou seja, até outubro, segundo as normas. E que os
repasses só serão efetuados após essas renovações serem feitas nos agentes
financeiros. Ainda segundo a pasta, as dívidas com os bancos públicos foram
deixadas pela gestão de Dilma Rousseff e a abertura de 75 mil vagas do Fies no
segundo semestre de 2016 só ocorreu porque o governo Temer restituiu R$ 4,5
bilhões do orçamento da Educação.
Em julho, o MEC editou uma Medida Provisória transferindo
para as instituições participantes do Fies o pagamento das taxas
administrativas de 2% dos encargos ligados ao programas de crédito estudantil.
Mas o passivo que havia, no valor de R$ 700 milhões, ainda não foi quitado - é
o que impede as renovações. Caldas, da ABMES, ressalta a contribuição do setor:
- O governo passou essa conta dos 2% para nós, para
assumirmos o pagamento dessas taxas da MP em diante. Mas ficar quatro meses sem
receber é insuportável para as instituições, que já precisam se organizar para
13o dos profissionais - diz Caldas.
Foram representadas na reunião desta quinta-feira no Planalto
a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), a Associação
Brasileira das Universidades Comunitárias (ABRUC), Associação Brasileira para o
Desenvolvimento da Educação Superior (Abraes) e a Associação Brasileira de
Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes).
NOTA DO EX-MINISTRO
ALOIZIO MERCADANTE
Em nota, o ex-ministro, Aloizio Mercadante, diz que sua
gestão "deixou um orçamento de R$ 18, 2 bilhões, mais R$ 260 milhões para
pagamento de taxas de administração do Fies. Além disso, R$ 259 milhões do
Fundo de Garantia De Operações de Crédito Educativo (FGEDUC). Esses valores são
mais que suficiente para suprir as necessidades do Fies, ainda mais se
considerarmos que a gestão Mendonça Filho já realizou o corte de 90 mil vagas
no programa em 2016.
Há mais de quatro meses no Ministério da Educação e depois de
ter desmontado a experiente e competente equipe de técnicos do ministério, a
gestão do governo golpista já deveria ter realocado verbas dentro da mesma
rubrica do Fies ou ter solicitado aumento do limite de recursos ao Ministério
do Planejamento, decisões rotineiras de gestão que sempre foram adotadas na
gestão do programa.
Trata-se de uma cortina de fumaça para justificar os cortes
no Ministério da Educação e mascarar a clara intenção do governo golpista de
reduzir a inclusão das pessoas de baixa renda na educação superior. A expressão
máxima do descompromisso deste governo com a educação é PEC 241, que congela
por 20 anos os investimentos reais em educação acima da inflação. Com este
governo golpista, estamos assistindo à retirada progressiva dos pobres e dos
diretos sociais do orçamento".
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